Uma pesquisa de percepção pode ir além da avaliação do serviço e ajudar operadores e gestores a identificar prioridades, compreender expectativas e tomar decisões mais conectadas à experiência de quem utiliza o transporte público.
Planejar a mobilidade urbana envolve dados operacionais, demanda, infraestrutura, frequência, capacidade e muitos outros indicadores. Mas existe outra fonte de informação que pode ajudar a orientar essas decisões: a percepção de quem está diariamente dentro dos sistemas de transporte.
A Pesquisa Qualimob/Cittamobi, realizada no segundo trimestre de 2026, reuniu mais de 10 mil respostas válidas em 246 municípios, abrangendo todo o território nacional. Com 98,4% dos participantes utilizando transporte público na cidade onde moram e 77,8% viajando cinco ou mais dias por semana, o levantamento reúne uma perspectiva ampla de quem vivencia o transporte coletivo no cotidiano.
Mais do que medir satisfação, a pesquisa ajuda a entender quais aspectos interferem na experiência e quais deles aparecem como prioridades para os passageiros.
O que o passageiro revela sobre a mobilidade
Os dados mostram que diferentes elementos disputam espaço na percepção de qualidade. Pontualidade dos ônibus foi apontada por 66,5% dos entrevistados entre as cinco principais prioridades, seguida pela rapidez no tempo de espera, com 47,5%. Informações claras sobre linhas aparecem em 29,5% das respostas.
Esses números ajudam a transformar uma percepção individual em informação que pode ser observada de forma estruturada. Para operadores e gestores, ouvir o passageiro significa compreender quais atributos têm maior peso na experiência e cruzar essa percepção com os indicadores da própria operação.
Essa lógica pode ser aplicada a diferentes sistemas. Em um ônibus ou BRT, pode ajudar a compreender a relação entre frequência, lotação e espera. Em trens, metrôs e VLTs, pode contribuir para avaliar aspectos da jornada, informação e conexão com outros serviços. Nas barcas, pode revelar necessidades específicas relacionadas a horários, espera e planejamento do deslocamento.
A questão não é aplicar a mesma régua a todos os modais, mas incorporar a perspectiva de quem utiliza cada sistema às decisões sobre ele.
Escutar também ajuda a definir prioridades
Uma pesquisa de percepção não precisa terminar em um índice de satisfação. Seu valor está também na possibilidade de identificar onde estão as prioridades de quem utiliza o serviço.
A Qualimob avaliou 14 dimensões da experiência de mobilidade e mostra que a percepção do passageiro é formada por diferentes camadas. Pontualidade, lotação e tempo de espera aparecem entre os pontos críticos, enquanto condução dos motoristas, acessibilidade e limpeza interna estão entre os aspectos com avaliações mais positivas.
Para o planejamento, essa leitura pode ser complementar aos dados técnicos. O indicador operacional mostra o que acontece no sistema; a escuta ajuda a entender como aquilo é percebido por quem depende dele.
Informação também faz parte do planejamento
A relação entre escuta e planejamento fica ainda mais evidente quando se observa o papel da informação. A clareza das informações foi avaliada positivamente por 47,1% dos entrevistados e ocupa a quarta posição entre as 14 dimensões analisadas. Entre as pessoas que utilizam aplicativos de informação sobre transporte público, como o Cittamobi, essa avaliação chega a 50,4%.
Informação não substitui frequência, pontualidade ou capacidade. Mas pode ajudar o passageiro a lidar melhor com aquilo que acontece durante a jornada, especialmente quando há espera ou mudanças no deslocamento.
Esse princípio vale para diferentes formas de transporte público. Saber quando um ônibus está chegando, acompanhar uma alteração no metrô, consultar a partida de um trem, entender uma conexão de VLT ou verificar o horário de uma barca são formas de transformar informação em capacidade de planejamento.
Planejar a mobilidade também é entender quem se desloca
A escuta do passageiro não substitui os dados de operação, mas acrescenta uma dimensão humana à análise do transporte público. Ela ajuda a revelar necessidades que podem não aparecer quando o sistema é observado apenas por seus indicadores técnicos.
Em uma mobilidade cada vez mais orientada por dados, compreender o que as pessoas valorizam, onde encontram dificuldades e quais informações precisam para tomar decisões pode contribuir para escolhas mais precisas.
Ouvir quem utiliza o transporte, portanto, não é apenas medir satisfação. É produzir inteligência para entender prioridades, qualificar decisões e planejar sistemas mais conectados à experiência real de quem se desloca pelas cidades.