Transporte público: Desacelerar também é saber quando o transporte público vai chegar

O acesso à informação é fundamental em tudo na vida, ainda mais no transporte coletivo, um serviço que tem como premissa a previsibilidade

Por Roberta Soares

O artigo abaixo, assinado pela diretora de Estratégia e Relacionamento do Cittamobi – um dos maiores aplicativos de mobilidade urbana do País -, Emanuele Cassimiro, confirma algo que todo passageiro do sistema de transporte público coletivo sabe e sente na pele: a previsibilidade é fundamental para o serviço, tanto para manter como para atrair usuários.


Mais do que reduzir o tempo de espera no ponto, na estação ou no terminal de ônibus, a informação do horário de chegada do transporte dá ao passageiro previsibilidade para planejar a viagem, fazer escolhas e viver a mobilidade com menos pressa e mais autonomia. Confira o artigo:

Por Emanuele Cassimiro

Existe uma diferença enorme entre esperar e esperar sem saber.Quem está em um ponto de ônibus conhece bem essa sensação. Olhar para a rua, consultar o relógio, tentar identificar ao longe se aquele veículo é o seu. Cinco minutos podem parecer quinze quando não existe nenhuma informação sobre o que está acontecendo.

Agora, quando sabemos que o ônibus chega em cinco minutos, a espera muda. O tempo continua sendo o mesmo. Mas a nossa relação com ele é outra. É justamente aí que acredito que precisamos ampliar a discussão sobre o que significa desacelerar no trânsito.

A Semana Nacional do Trânsito 2026 traz uma provocação importante: “O que a pressa não deixa você ver”. A campanha do Observatório Nacional de Segurança Viária convida a uma mudança de olhar sobre o trânsito e sobre as pessoas que compartilham os mesmos caminhos.

No transporte público, essa mudança de olhar também passa por algo que parece simples, mas tem impacto direto na experiência: informação.

A ESPERA COMEÇA ANTES DO ÔNIBUS CHEGAR

Quando falamos sobre qualidade do transporte público, é natural pensar em pontualidade, frequência, lotação, conforto e condições dos veículos. Todos esses fatores são fundamentais.

Mas existe uma dimensão que muitas vezes fica em segundo plano: a capacidade de o passageiro saber o que está acontecendo.

A Pesquisa Qualimob/Cittamobi, realizada em mais de 240 cidades, em todo o território nacional, e que recebeu mais de 10 mil respostas, mostra que 28% dos passageiros avaliam o tempo de espera como um ponto crítico da experiência com o transporte público.

Ao mesmo tempo, 47,5% colocam a rapidez no tempo de espera entre suas cinco principais prioridades.

Esses números dizem muito sobre o valor do tempo para quem depende do transporte coletivo todos os dias.Mas existe uma pergunta que considero ainda mais importante: quanto desse desconforto vem do tempo em si e quanto vem da incerteza sobre esse tempo? São coisas diferentes.

PREVISIBILIDADE TAMBÉM É QUALIDADE

Não existe tecnologia capaz de fazer um ônibus atravessar instantaneamente um congestionamento.

Um aplicativo não elimina uma ocorrência na via, um desvio ou um atraso operacional. Mas existe algo que a tecnologia pode fazer muito bem: dar visibilidade ao passageiro sobre aquilo que está acontecendo.

Quando o aplicativo Cittamobi informa a previsão de chegada de um ônibus, ele não está apenas mostrando um horário. Está dando ao passageiro uma informação para tomar uma decisão.

Esperar? Caminhar até outro ponto? Reorganizar um compromisso? Permanecer onde está?

A decisão continua sendo da pessoa.É isso que considero uma das contribuições mais relevantes da tecnologia para a mobilidade: não substituir a escolha do passageiro, mas dar melhores condições para que ele escolha.

A Pesquisa Qualimob/Cittamobi mostra justamente essa relação. De uma forma clara, ela aponta que a experiência da mobilidade começa antes de o passageiro entrar no veículo e que a previsibilidade tem valor porque reduz a incerteza e amplia a autonomia.

TALVEZ DESACELERAR SEJA TER INFORMAÇÃO PARA NÃO CORRER

Quando não sabemos quanto tempo falta, cada minuto parece urgente. E a urgência muda nosso comportamento.

Podemos sair correndo para não perder o ônibus, atravessar uma rua com pressa, mudar de caminho sem planejamento ou simplesmente começar a viagem já sob uma sensação de atraso.

Não estou dizendo que um aplicativo resolve esses comportamentos ou que informação, sozinha, garante segurança no trânsito. Seria uma simplificação.Mas acredito que existe uma conexão importante entre previsibilidade, autonomia e uma mobilidade mais humana.

Desacelerar não precisa significar fazer tudo mais devagar. Pode significar ter informação suficiente para não precisar fazer tudo com pressa.

Essa é uma mudança de perspectiva que precisamos levar para a mobilidade urbana.Durante muito tempo, discutimos tecnologia pensando principalmente em eficiência operacional.

Hoje, precisamos discutir também o que ela representa para quem está do outro lado do sistema: o passageiro.

Porque, no fim, uma boa experiência de mobilidade não acontece apenas quando o ônibus chega. Ela começa quando a pessoa sabe quando ele vai chegar.

E talvez seja justamente aí que a tecnologia possa ajudar a cidade a desacelerar: não diminuindo necessariamente o tempo da viagem, mas reduzindo a incerteza que transforma cada deslocamento em uma corrida contra o relógio.

Emanuele Cassimiro é diretora de Estratégia e Relacionamento do Cittamobi

Publicado em: Jornal do Commercio

Foto: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

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