Por Emanuele Cassimiro
No trânsito brasileiro, os números não são apenas estatísticas; eles têm rosto, família e um custo social avassalador. Diariamente, centenas de pessoas perdem a vida em sinistros de trânsito no Brasil. Diante dessa realidade, surge uma questão urgente: quanto vale uma vida?
Embora o imediatismo dos aplicativos de transporte por moto pareça uma solução para a mobilidade urbana, defendo que o investimento e a adesão ao transporte coletivo são as únicas formas sustentáveis de garantir a segurança e a integridade do cidadão, enquanto a “moto por aplicativo” se consolida como um fenômeno de destruição social silencioso.
A cilada da agilidade: o risco real das motos
A conveniência dos aplicativos de moto esconde um risco desproporcional. No Brasil, ocupantes de motocicletas representam 41,7% de todas as mortes no trânsito, um salto alarmante comparado aos 3,4% registrados em 1998. Em 25 anos, a mortalidade nessa categoria aumentou 13 vezes.
O argumento da agilidade cai por terra quando analisamos a vulnerabilidade intrínseca: o risco de um usuário de motocicleta morrer no trânsito é 200 vezes maior do que o de um passageiro de ônibus. Além da falta de proteção do veículo, os pilotos de aplicativos e, consequentemente, quem se utiliza desses serviços, enfrentam fatores ocupacionais críticos, como jornadas exaustivas e a pressão algorítmica para cumprir prazos, o que colide diretamente com a segurança viária.
O custo da insegurança e o papel do transporte público
Muitos usuários recorrem às motos quando o transporte coletivo falha em pontualidade ou conforto. Contudo, essa migração alimenta um ciclo vicioso: a deterioração do transporte público leva ao aumento do transporte individual, que resulta em mais mortes e um custo social estratosférico. Estima-se que o impacto econômico dos sinistros de trânsito no Brasil seja de R$ 320 bilhões por ano, o equivalente a 3,8% do PIB.
O contra-argumento comum é a falta de recursos para melhorar os ônibus. No entanto, o caso de Curitiba demonstra que o principal recurso é a vontade política. Através de uma gestão orientada por dados e fiscalização rigorosa sobre o motofrete, a cidade alcançou uma redução histórica de 54,5% na mortalidade no trânsito desde 2011.
Para que o transporte público vença a corrida contra o risco das motos, ele precisa de tecnologia. Ferramentas como a plataforma Cittamobi já provaram que, ao oferecer informação em tempo real e previsibilidade, é possível reduzir a percepção negativa do sistema e evitar que o passageiro opte por modais mais perigosos por pura frustração.
Escolher o transporte público é uma escolha pela sobrevivência
A mobilidade não é verdadeiramente sustentável se não for segura. Não podemos aceitar que a pressa do dia a dia valha mais do que a vida de um jovem – grupo mais afetado por essas tragédias.
A solução passa por interromper a migração para o transporte individual de alto risco e fortalecer o transporte coletivo como um braço de proteção ao cidadão. Políticas públicas eficazes, como as de Curitiba, e tecnologias que conectam a cidade ao passageiro, como o aplicativo Cittamobi, são o caminho. Afinal, a vida não tem preço, mas o trânsito seguro tem método, investimento e, acima de tudo, exige escolhas conscientes de cada um de nós.