A adoção de diferentes tecnologias começa a se firmar como solução para proteger mulheres e pessoas vulneráveis nos sistemas de transporte público
Por Alexandre Asquini
Todos os dias, entre quatro da tarde e sete da noite, um contingente de mulheres deixa seus locais de trabalho no bairro da Aclimação, em São Paulo, e se dirige ao ponto de ônibus, embarcando para uma curta viagem até a estação de metrô do Paraíso, pertinho da avenida Paulista. São mulheres de todas as idades, entre as quais muitas funcionárias dos comércios da região ou diaristas.
Observando o movimentodessas passageiras, percebe-se que o ônibus, além de ser um meio de transporte, funciona para muitas delas como um ponto de encontro efêmero, mas agradável: cumprimentam motorista e cobrador, reveem amigas, contam casos,falam ao celular para saber se está tudobem em casa e coisas assim.
A viagem é curta até o metrô, mas, depois, para uma boa parte delas, começa a saga de um longo retorno para casa, na zona leste ou zona sul da cidade, ou municípios vizinhos. Muitas saíram de casa com o dia ainda escuro, esperaram o primeiro ônibus num ponto, por vezes deserto, e ao chegarem de volta vão encontrar a mesma rua mal iluminada. Em muitos momentos do trajeto, na ida e na volta, tiveram que se equilibrar em veículos superlotados, sujeitas a desconfortos, desrespeito, contatos inapropriados e, muitas vezes, a assédio e violência.
A questão não é de pequena monta: afeta milhões de mulheres. De acordo com dados da Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano (NTU), neste ano de 2026, acontecem em todo o país 34,9 milhões de viagens de ônibus urbanos e metropolitanos por dia útil típico. Considerando que cerca de 60% dessas viagens são feitas por mulheres, constata-se que aproximadamente 21 milhões de mulheres circulam todos os dias por esse meio de transporte em todo o país.
Os sistemas sobre trilhos – trens, metrôs, monotrilhos e veículos leves sobre trilhos – produzem cerca de 8,61 milhões de viagens ao dia, sendo 51,2% feitas por mulheres, de acordo com dados de 2024 divulgados pela Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos).
TECNOLOGIAS APROPRIADAS À SEGURANÇA
Embora a qualificação das viagens por ônibus já tenha uma fórmula básica bem conhecida – frotas novas, preferência no sistema viário, oferta adequada, respeito aos horários e tarifa módica –, é preciso também pensar em soluções que garantam a segurança das mulheres durante suas viagens. Como fazer isso?
Parte da resposta a essa pergunta seguramente está na adoção de tecnologias que possam proteger as mulheres e pessoas vulneráveis nos sistemas públicos de transporte. Esse caminho começa a se firmar. Em 8 de março de 2026, aproveitando o Dia Internacional da Mulher, o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) – divulgou um infográfico, cujo objetivo é justamente mostrar as potencialidades e estimular a adoção de tecnologias apropriadas para comunicar, inibir e até mesmo reprimir casos de violência e assédio nos meios de transporte.
Simples e de rápida visualização, o documento recomenda a adoção do GPS (Sistema de Posicionamento Global), capaz de rastrear a localização exata do veículo de transporte público em tempo real, agilizando intervenções em casos de crimes. A existência de um dispositivo de comunicação com o centro de controle operacional do sistema permite o acionamento imediato do policiamento em caso de ameaça ou assédio. Botões de pânico integrando motoristas e equipe operacional também visam à resposta imediata, essencial para a proteção das vítimas e coleta de provas.
Outra recomendação é que o veículo tenha boa iluminação interna, aumentando a visibilidade durante viagens noturnas, de modo a inibir situações de assédio e violência, facilitar a identificação de eventuais agressores e promover maior sensação de segurança.
Ainda conforme o infográfico, a comunicação com os passageiros reforça informações de segurança, amplia a conscientização sobre a intolerância ao assédio.
A comunicação deve compreender campanhas educativas, orientando sobre direitos e mostrando os canais de denúncia.Além disso, são imprescindíveis as câmeras de monitoramento do ambiente, que, além de inibirem comportamentos abusivos, asseguram o registro das ocorrências, facilitando a identificação de agressores.
Na opinião de Clarisse Cunha Linke, diretora-executiva do ITDP Brasil, a tecnologia pode ser uma ferramenta decisiva para transformar a segurança no transporte público. Ela salienta que há uma janela de oportunidade para a implementação desse tipo de recurso, pois muitos municípios estão preparando novos processos licitatórios para a aquisição de veículos de transporte público nos próximos anos
Licitações representam uma ocasião perfeita para a incorporação de tecnologias que possam prevenir e reduzir a violência contra as mulheres. “O momento é estratégico para exigir que as novas licitações incluam soluções tecnológicas que fortaleçam a segurança das mulheres durante o trajeto, criando ambientes mais acolhedores e seguros no transporte coletivo”, afirma a dirigente.
IDENTIFICAÇÃO DE CRIMINOSOS
Outro recurso que joga em favor da segurança das mulheres – e de toda a sociedade – são as câmeras dotadas de tecnologia de reconhecimento facial para identificar criminosos foragidos e pessoas desaparecidas. Essas câmeras já estão operativas em grandes e médias cidades do país, como os municípios da região metropolitana de Vitória, a cidade de São Paulo e no Distrito Federal.
As imagens captadas pelas câmeras são cruzadas em tempo real com bancos de dados de procurados da justiça e de pessoas desaparecidas. Quando alguém arrolado nesse sistema é identificado, o sistema emite um alerta. No caso dos foragidos da justiça, unidades das forças de segurança realizam a abordagem e, confirmada a identidade, efetuam a prisão. Esses sistemas geralmente combinam câmeras estacionárias públicas e privadas, mas estão sendo também implantadas dentro dos ônibus.
MONITORAMENTO COM O CELULAR
Empresas dedicadas ao desenvolvimento e oferta de sistemas de inteligência em transporte também estão atentas a essa questão. Um exemplo é o Grupo Primova, que, por meio da marca Cittamobi, oferece soluções de inteligência de dados para gestão de frotas, prefeituras e operadoras de transporte público, o que inclui segurança no transporte público, com melhora do monitoramento e a interação com os passageiros.
O Cittamobi é um aplicativo que permite aos usuários monitorar a localização dos ônibus em tempo real. Está disponível em mais de 350 municípios no Brasil e em países como Argentina, EUA, França, Uruguai e Espanha. Trata-se de um recurso que funciona com base em parcerias com as operadoras de transporte e com as municipalidades, que autorizam o acesso aos dados do sistema de transporte para que sejam disponibilizados aos usuários. Algumas ações facultadas pelo Cittamobi são voltadas para a segurança das mulheres, servindo também para a atender a pessoas em situações de vulnerabilidade, como idosos e adolescentes.
O aplicativo permite que as usuárias encontrem rotas seguras para acesso ao transporte público, informando o tempo de deslocamento de onde a consultante está até o ponto de ônibus mais próximo. Também indica o horário da chegada do ônibus requerido a esse ponto. Com essas informações, a usuária poderá alcançar o ponto de parada praticamente ao mesmo tempo que o ônibus, evitando uma espera mais longa em um local eventualmente isolado.
Emanuele Cassimiro, diretora de Relacionamento e Estratégia do Cittamobi, diz que em 12 anos de atividade, o aplicativo não apenas acompanhou a evolução tecnológica, mas buscou sempre moldar-se às necessidades reais das pessoas. “Nosso cuidado no desenvolvimento reflete uma escuta ativa da população; entendemos que mobilidade urbana não é apenas mover pessoas, mas garantir que esse trajeto seja digno, seguro e conectado com a rede de apoio que a cidade oferece.”
Dois exemplos recentes mostram as possibilidades do Cittamobi no apoio às mulheres e outras pessoas vulneráveis. Em Recife (PE), em colaboração com a secretaria da Mulher, durante o evento “21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher”, em novembro de 2025, o Cittamobi divulgou os locais que ofereciam serviços de prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres, além de informar os horários de chegada e partida das linhas de ônibus. Nesse período, mais de 10 mil passageiras engajaram-se ativamente na campanha com o uso do aplicativo, sendo que houve 7,7 mil cliques em notificações e 2,7 mil cliques diretos nos “pins” que indicavam rotas.
Ainda em Recife, durante este carnaval, o Cittamobi registrou exatas 130.926 visualizações por meio do aplicativo referentes a informações sobre a rota dos ônibus e a um canal direto de apoio. Em Salvador (BA), em ação conjunta com as secretarias de Mobilidade Urbana e da Mulher, desenvolveu-se um projeto de proteção que registrou mais de 400 mil impactos. A iniciativa inseriu “pins” exclusivos no mapa indicando como chegar à Casa da Mulher Brasileira possibilitando acesso ao Botão Lilás, ferramenta do governo municipal para denúncias e socorro imediato.
ACOLHIMENTO EM PONTOS DE ÔNIBUS
O programa Abrigo Amigo é mantido pela empresa de publicidade digital e estática Eletromídia em parceria com as administrações municipais com o apoio da operadora de telecomunicações Claro. O programa alcança as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas, Cuiabá, Sorocaba, Porto Alegre e Fortaleza. Há 298 abrigos em operação nessas cidades e o objetivo divulgado pela Eletromídia é chegar a 653 unidades até o início de 2027.
O projeto transforma pontos de parada de ônibus em espaços de acolhimento e proteção para passageiros, em especial mulheres, durante a noite e a madrugada. Os equipamentos são conectados à internet e contam com câmeras de alta resolução, microfones, alto-falantes e atendimento remoto por chamada de vídeo entre 20h e 5h, permitindo que usuários em situação de vulnerabilidade solicitem acompanhamento enquanto aguardam o transporte público. Para ser atendido, o passageiro aperta um botão e por meio de uma videochamada passa a ter contato on-line com uma das mulheres de uma equipe preparada para acionar serviços de segurança pública e saúde durante situações de emergência.
Fonte: Revista Technibus