Por que a gestão da expectativa e a precisão dos dados se tornaram os ativos mais valiosos para a sustentabilidade do transporte coletivo.
Nas últimas duas décadas, testemunhamos uma metamorfose profunda na relação entre o cidadão e a cidade. Se no início dos anos 2000 a discussão sobre mobilidade orbitava quase exclusivamente a expansão de frota, a digitalização alterou o DNA dessa demanda. O passageiro contemporâneo não é apenas um usuário; ele é um consumidor de dados em tempo real. A incerteza, que antes era uma variável intrínseca ao sistema, tornou-se o principal fator de rejeição ao modal coletivo.
O diagnóstico da ineficiência invisível
Apesar dos avanços, o cenário brasileiro ainda apresenta um descompasso estrutural. Dados da Pesquisa CNT de Mobilidade Urbana 2024 revelam que o ônibus permanece essencial para 53% da população, mas enfrenta uma crise de confiança: quase 30% dos brasileiros abandonaram ou reduziram o uso do transporte público desde 2017.
Em grandes centros, como São Paulo, o diagnóstico é ainda mais sensível. Relatórios da SPTrans de 2026 apontam que a queda na demanda está diretamente ligada aos longos intervalos e à demora nos pontos. Quando o passageiro aguarda sem saber se o veículo passará em cinco ou quarenta minutos, o sistema falha em sua premissa básica de utilidade, empurrando o cidadão para modais individuais e saturando a malha viária.
Previsibilidade como ativo de gestão
Na minha percepção, fundamentada na prática e na análise de indicadores do setor, é que a previsibilidade tornou-se o novo conforto. Embora o conforto físico continue sendo relevante, ele é insuficiente para fidelizar se a jornada for uma incógnita. Como destacado em debates recentes na Arena ANTP 2025, a confiança do usuário hoje é medida pela precisão da informação. O passageiro tolera o tempo de viagem se tiver controle sobre ele. A fidelização não nasce apenas da comodidade da poltrona, mas da segurança de que o serviço planejado será, de fato, entregue.
Tecnologia como vetor de confiança
Com mudanças pontuais e específicas dentro desse setor, ecossistemas digitais e aplicativos de mobilidade, como o Cittamobi, deixam de ser conveniência para se tornarem vetores da estratégia pública, alinhados à Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU). A aplicação inteligente de dados permite:
- Redução da percepção de espera: Informar o tempo real mitiga a ansiedade e devolve ao cidadão a gestão de seu próprio tempo.
- Transparência Operacional: O gestor obtém dados granulares para fiscalização, enquanto o operador ajusta a oferta à demanda real.
- Comunicação de Contingência: Em situações de desvios ou incidentes, o canal direto com o usuário evita a sensação de abandono, preservando a reputação do sistema.
- Segurança Preditiva: Minimizar o tempo ocioso em paradas através da informação precisa é uma medida indireta de segurança pública.
Um chamado à tomada de decisão
Para prefeitos e operadores, a mensagem é pragmática: a previsibilidade não é um acessório tecnológico, mas uma estratégia de sobrevivência financeira. De acordo com o Anuário NTU 2024-2025, o setor enfrenta uma estagnação de demanda que exige novas formas de atratividade.
Investir na precisão dos dados é o caminho mais eficiente para transformar o transporte público em uma escolha racional. O futuro da mobilidade não será definido apenas por quem transporta mais pessoas, mas por quem melhor gerencia a informação e a confiança de quem se desloca.
Emanuele Cassimiro Diretora de Relacionamento e Estratégia da Primova