Por MÁRCIA PINNA RASPANTI
Niege Chaves é vice-presidente do grupo MobiBrasil, que reúne empresas de transporte público de passageiros com operações no Recife, em São Paulo e Sorocaba (SP), e sócia-fundadora do Cittamobi, aplicativo de soluções tecnológicas para a mobilidade, e da Primova, empresa de inovação em transporte.
Em entrevista ao Anuário do Ônibus e da Mobilidade Urbana, a executiva comenta os principais desafios e oportunidades no cenário atual do transporte coletivo urbano do Brasil. Para ela, o ano de 2026 tem se apresentado bastante complexo para o setor. “Temos a Copa do Mundo e as eleições. No transporte coletivo, há muito impacto das eleições. Em alguns estados, a gestão do transporte é metropolitana, então o governo estadual é quem responde por isso. Em outros casos, a gestão é municipal, mas recebe subsídios do Estado e da União”, avalia.
A gestão integrada da mobilidade do país, com a participação efetiva dos governos municipais, estaduais e federal, é fundamental para que o setor avance para um transporte de mais qualidade, na visão de Niege. Temas como a tarifa zero só poderão se tornar realidade com esse tipo de política pública. A empresária também alerta para a importância da aprovação do Marco Legal do Transporte Coletivo.
ANUÁRIO DO ÔNIBUS E DA MOBILIDADE URBANA – Quais as principais novidades no transporte coletivo da MobiBrasil? Há previsão de renovação de frotas para 2026 ou de outros investimentos?
NIEGE CHAVES – A MobiBrasil tem investido fortemente em renovação de frota. Nossa preocupação é sempre manter a idade média da frota baixa para prestar um serviço cada vez melhor. Até julho, a MobiBrasil vai receber 128 ônibus elétricos para São Paulo, que representam um investimento perto de R$ 180 milhões. São carros adquiridos no ano passado. Para o segundo semestre, a empresa deve fazer outro pedido de mais 80 veículos, no valor aproximado de R$ 80 milhões. Os ônibus contam com chassis BYD e Mercedes-Benz. Em São Paulo, estamos fazendo a renovação toda de modelos elétricos, que é a única forma possível atualmente. Estamos no aguardo da autorização para o biometano. No Recife, estamos comprando 40 ônibus a diesel, e vamos adquirir para Sorocaba. Mas a gente vai começar a testar elétricos também.
A MobiBrasil também faz investimentos constantes em tecnologia. A inteligência artificial (IA) tem nos ajudado bastante na parte de manutenção. O sistema eXplore AI, desenvolvido pela Primova, tem feito muita diferença na nossa operação. Tem nos ajudado a entender os pontos mais críticos e nos orientado como resolvê-los.
ANUÁRIO – Como você avalia o processo de descarbonização no país?
NIEGE CHAVES – É um processo muito importante porque mostra o protagonismo do transporte público. Estamos testando firmemente os ônibus elétricos por uma questão pontual de São Paulo. Ainda há muitos desafios. A questão de chegada da energia, a dificuldade de abastecimento de média e alta tensão. Estamos com a garagem do Jabaquara pronta, do Alvarenga também. Mas estamos discutindo as alternativas de BESS (Sistemas de Armazenamento de Energia por Bateria) e de alta tensão. Porque, pelo que a gente está vendo, o que temos hoje não é suficiente para a gente fazer a renovação para a frota elétrica. O BESS é importante em dois cenários: o primeiro é resolver como paliativo no curto prazo. E a segunda hipótese é para dar mais estabilidade. Pois, com esses riscos que a gente corre de energia, com as chuvas que atrapalham a distribuição, o BESS é uma garantia de que se houver algum problema na central, os ônibus não vão ficar sem abastecimento. Então eu acho superimportante a gente ter esse apoio do BESS nas garagens. Faz parte da estratégia quando o volume for muito grande de frota.
Acredito que há outras opções em tecnologia menos poluentes, e estamos tentando entendê-las. Nossa ideia é testar todas. Tudo depende da região. Há locais onde o gás é mais adequado, em outros a eletrificação é melhor. Depende de cada cidade, da demanda, da disponibilidade. Inclusive o diesel tem evoluído bastante e também é um caminho. O Euro 6 é uma tecnologia bastante avançada.
ANUÁRIO – Quais os maiores desafios que o empresário de ônibus enfrenta atualmente?
NIEGE CHAVES – O primeiro desafio que o empresário de ônibus enfrenta é o contrato. Enquanto o marco regulatório do transporte coletivo não for aprovado, os contratos ainda seguem cheios de incertezas, de que ambas as partes cumpram suas obrigações. Contratos de longo prazo, com garantias, são fundamentais para as empresas continuarem a fazer investimentos. Outro problema é o apagão da mão de obra, que é uma questão para todo o país. Como capacitar, como formar motoristas? Antigamente, todos os nossos motoristas indicavam um filho ou um sobrinho para ser motorista também. Isso não ocorre mais. Essa geração não quer mais exercer a profissão dos pais. Essa falta de mão de obra precisa ser tratada com cuidado. Porque tudo depende das pessoas – o atendimento, a operação. Ainda mais em um serviço como o nosso, em que o trabalho é sete dias por 24 horas.
ANUÁRIO – As recentes alterações no preço do diesel estão afetando o setor? Como contornar essa dificuldade?
NIEGE CHAVES – As oscilações do preço do diesel têm sido um desafio para as empresas de ônibus. É o segundo maior custo na operação, e essas oscilações têm um impacto muito grande. Esse é o tipo de problema “bomba atômica”, porque vai atingir todo mundo. Infelizmente, a gente tem muita pouca força para resolver, principalmente em relação aos contratos. Em algumas cidades, a gente trabalha com banda. Então, quando passa da banda de 10%, você absorve, o resto o governo já vai dando gatilho. Há diferentes modelos, em alguns o gatilho é com 5%, e aí já volta para o retroativo. Mas o fato é que esses aumentos de diesel criam um déficit nas empresas. É um momento muito complexo, é bem difícil. E a gente tem a preocupação até que haja problema de fornecimento. Seria o pior dos mundos, se faltar o produto e não conseguirmos colocar os ônibus nas ruas.
ANUÁRIO – Como você se sente como uma importante liderança feminina em um mundo tradicionalmente masculino, como o do transporte?
NIEGE CHAVES – Essa pergunta eu respondo mil vezes com todo o prazer. Eu me sinto privilegiada em fazer parte de um ambiente como esse, em que, apesar de ser machista e ter mais homens no nosso setor, eu me sinto superacolhida e vejo que conseguimos fazer a diferença de pouquinho em pouquinho. Na MobiBrasil São Paulo já temos 35% de mulheres no quadro de colaboradores. E a ideia é ampliar a cada dia mais. A gente tem um terminal na zona leste em que 65% do efetivo é composto por mulheres. O Brasil está recebendo melhor as mulheres, pois o mundo está mais aberto. Temos que acreditar que passamos por um processo de transformação e de inclusão. Fico muito feliz de participar desse processo e espero que cada vez mais mulheres possam contribuir com a mobilidade.
ANUÁRIO – Qual a sua expectativa em relação ao setor de mobilidade e transporte coletivo em 2026? As eleições devem ter impactos positivos?
NIEGE CHAVES – Este ano é complexo para o nosso setor, porque temos a Copa do Mundo e as eleições. No transporte coletivo, há muito impacto das eleições. Em alguns estados, a gestão do transporte é metropolitana, então o governo estadual é quem responde por isso. Em outros casos, a gestão é municipal, mas recebe subsídios do Estado e da União. Sou sempre otimista e acredito que o Brasil vai melhorar. O povo brasileiro é trabalhador e existem muitas oportunidades no país. E que venha logo 2027 para sabermos quais serão as diretrizes para o transporte público.
ANUÁRIO – Qual a importância da aprovação do marco legal do transporte público?
NIEGE CHAVES – A aprovação é fundamental para o setor. Eu sou a maior defensora de sua aprovação. A gente observa uma diferença enorme quando existem políticas públicas municipais, estaduais e federais de forma integrada para qualquer serviço público. Acho que o marco regulatório é o início de novas relações operacionais e comerciais entre empresas e órgão gestor. Eu sempre falo isso. Porque haverá mais clareza de como o órgão gestor vai cobrar, fiscalizar, pagar por viagem cumprida, por passageiro transportado, por pontualidade. Então haverá essa capacidade de as empresas serem mais auditadas e mais controladas. Acredito que isso vai melhorar a qualidade do serviço. Em contrapartida, o governo vai ter mais responsabilidade para fazer o que estiver dentro do orçamento e pensar antes de dar gratuidades e outros benefícios. O sistema vai estar mais integrado.
Acho que nesse jogo vai ter um ganha-ganha enorme, tanto para a sociedade como para o setor empresarial. Porque, depois do marco regulatório, devem vir até investimentos internacionais, como acontece na energia, saneamento. Acho que isso traz uma segurança maior para o setor de transporte público. Não muda de imediato. Eu brinco que não vira da noite para o dia a catraca, a chave, mas começam a ter mudanças na forma de contratação, nos contratos atuais. Isso vai vir em uma perspectiva de futuro.
O Projeto de Lei 3.278/2021 recebeu uma série de críticas sobre um possível aumento de taxas e impostos que o marco poderia trazer. É um tipo de crítica superficial e de quem não conhece o setor e não conhece a importância que a mobilidade tem nas cidades e na vida das pessoas. Porque muito mais caro é o engarrafamento, é a questão da saúde pública, é o trânsito, é o tempo que as pessoas perdem no deslocamento. Então, qualquer investimento, qualquer dinheiro investido em transporte público de qualidade é um dinheiro investido para a melhoria da vida das pessoas nas cidades, com mais qualidade.
ANUÁRIO – Qual a sua opinião sobre tarifa zero?
NIEGE CHAVES – Ainda não tenho uma opinião formada sobre a tarifa zero, mas acredito que é um tema que deve ser discutido a fundo, com seriedade, pois se trata de uma medida importante de inclusão social. E pode transformar a vida das pessoas e das cidades, melhorando o trânsito que hoje é caótico. O problema dessa inclusão é o custo, por isso a participação do governo federal precisa ser efetiva. É um assunto que precisa continuar a ser discutido e aprofundado com a sociedade, pois pode ser a oportunidade de termos cidades mais inclusivas. A participação do governo federal é fundamental na tarifa zero. Sem esse apoio do governo federal, ela é inviabilizada. O governo tem se manifestado favorável à iniciativa, mas vamos ver se isso se torna realmente um programa de apoio para se fazer essa transição.
Fonte e Foto: Anuário do Transporte e da Mobilidade Urbana