Transformação digital, inteligência de dados e inovação tecnológica são urgências estratégicas para o transporte público brasileiro.
Por Emanuele Cassimiro, Diretora de Relacionamento e Estratégia da Primova
Existe um abismo silencioso no transporte público brasileiro. De um lado, o passageiro: aquele que pede comida pelo celular em segundos, rastreia um entregador em tempo real, paga uma conta com reconhecimento facial e consulta o horário de qualquer compromisso com um toque. Do outro lado, o sistema de mobilidade urbana que deveria servi-lo, ainda operando com planilhas, decisões baseadas em intuição e processos que raramente dialogam entre si.
Hoje, o cidadão organiza sua rotina pelo smartphone. Ele utiliza aplicativos para pagamentos digitais, navegação em tempo real e serviços sob demanda. Mas, ao acessar o transporte coletivo, frequentemente enfrenta incerteza sobre horários, pouca integração entre modais e baixa previsibilidade operacional. A jornada digital termina quando começa o deslocamento físico.
Os números traduzem bem essa distância. Segundo o Anuário NTU 2023-2024, o transporte coletivo por ônibus perdeu 44,1% dos passageiros pagantes em dez anos. Em 2013, eram 390 milhões de passageiros transportados por mês. Em 2023, esse número caiu para 214 milhões.
A Pesquisa de Mobilidade da População Urbana, realizada pela CNT em 2024 com mais de 10 mil entrevistados, revela que 29,4% dos usuários abandonaram completamente o transporte público desde 2017, enquanto 27,5% reduziram sua frequência. As principais razões? Desconforto, pouca flexibilidade e longos tempos de viagem, problemas que, em grande parte, têm solução tecnológica disponível hoje.
Gestão pública ainda analógica: o desafio estrutural
O problema não é apenas infraestrutura física, é arquitetura de gestão. Muitas prefeituras ainda estruturam a política de transporte público com base em relatórios retrospectivos, baixa integração de dados e limitada digitalização da jornada do passageiro.
Em um contexto de cidades inteligentes (smart cities), mobilidade inteligente e governança baseada em dados, operar com baixa visibilidade em tempo real significa tomar decisões reativas. Sem análises preditivas, sem inteligência artificial aplicada e sem integração sistêmica, a gestão da mobilidade urbana perde capacidade estratégica.
O passageiro, por outro lado, já internalizou padrões digitais: previsibilidade, pagamento sem fricção, informação transparente e comunicação em tempo real. Ignorar essa mudança comportamental compromete a competitividade do transporte coletivo frente a alternativas individuais.
Tecnologia aplicada à mobilidade urbana: dados, IA e pagamento digital
A espinha dorsal dessa transformação reside na capacidade de integração da Plataforma Cittamobi, que hoje consolida o monitoramento em tempo real, a comunicação direta com o passageiro do transporte e a inteligência operacional em um único ecossistema estratégico. Ao entregar informação confiável e auditável na palma da mão do cidadão, o Cittamobi não apenas mitiga a ansiedade da espera, mas fortalece a percepção de qualidade do serviço e fornece o suporte de dados necessário para as decisões mais críticas dos operadores e gestores públicos.
Essa robustez informativa é complementada por camadas tecnológicas que garantem a saúde financeira e a eficiência do sistema, como o Primova Pay, fundamental para a modernização da bilhetagem e a ampliação do pagamento digital. Essa solução reduz drasticamente os custos operacionais e eleva a rastreabilidade das transações, garantindo o compliance e a transparência pública exigidos pelos órgãos de controle.
Para fechar o ciclo de inteligência, o eXploreAI atua na fronteira da análise preditiva de demanda, permitindo que a gestão identifique gargalos antes mesmo que eles se tornem críticos. Ao processar grandes volumes de dados, essa inteligência artificial orienta uma alocação de frota muito mais precisa, eliminando a ociosidade e garantindo que o planejamento urbano seja, finalmente, pautado pela realidade dinâmica do deslocamento humano.
Dados como política pública
A integração dessas soluções cria algo que ainda é raro no transporte público brasileiro: uma camada de inteligência que conecta o planejamento estratégico à operação em tempo real. Municípios que adotam esse modelo deixam de gerir mobilidade no escuro. Passam a compreender de fato como sua população se move, onde o sistema falha e como otimizar recursos com eficiência comprovada.
Isso importa especialmente num cenário em que 63% dos passageiros que abandonaram o transporte público afirmam, segundo a pesquisa da CNT, que voltariam a usá-lo se houvesse melhorias em conforto, flexibilidade e frequência. A demanda está latente. O que falta não é vontade do usuário, mas uma gestão à altura da sua expectativa digital.
A hora de agir é agora
Nenhuma cidade do mundo que avançou na qualidade de vida urbana fez isso ignorando tecnologia. Seul, Singapura, Recife e Belo Horizonte, em diferentes graus, investiram em plataformas integradas, dados abertos e experiência do passageiro como eixos centrais de suas políticas de mobilidade.
O Brasil tem urgência, tem escala e, cada vez mais, tem as ferramentas. O que precisamos agora é de gestores públicos e operadores dispostos a dar o salto, não porque é tendência, mas porque o passageiro que espera no ponto de ônibus já vive, há anos, no século XXI.
A mobilidade urbana precisa chegar lá também.
Emanuele Cassimiro é Diretora de Relacionamento e Estratégia da Primova, empresa especializada em soluções tecnológicas para mobilidade urbana.